No início dos anos 60, um caixeiro-viajante chega de comboio a Ashton, uma pequena vila de Carolina do Sul. Devido a uma animação excepcional, o porteiro do hotel, onde normalmente passa a noite, diz-lhe que já não há quartos na parte da vila destinada aos brancos. “Tente um hotel no bairro dos negros, ou então, passe a noite na estação » No hotel em que se apresenta o porteiro diz-lhe « Sim, tenho quartos, mas não os posso alugar aos brancos, nem que seja por uma única noite” O caixeiro viajante exausto, pega na mala e dirige-se para uma ruela, onde unta a cara e as mãos de graxa preta. De novo no hotel, pede para ser acordado às sete, para apanhar o primeiro comboio. “Pode contar comigo” diz-lhe o porteiro dando-lhe as chaves do quarto. Põe-se na cama e, apesar do ruído, adormece. Acorda em sobressalto por pancadas na porta e uma voz dizendo « São sete horas ! » O viajante olha para o relógio e sendo 7 :15 prepara-se à pressa, vai a correr para a estação, apanha o comboio e senta-se na carruagem pensando dormir mais um pouco. O revisor chega e, pondo-lhe a mão no ombro, diz-lhe “Esta carruagem é reservada aos brancos.” O viajante ri-se, tira o lenço para limpar a cara:”Desculpe, era uma piada, uma piada de mau gosto” Mas o lenço permanece branco. O revisor olha para ele impacientemente. O viajante vai à casa de banho e, olhando-se ao espelho, apercebe-se que o rapaz do hotel, que o despertou, se tinha enganado de andar. (Excerto de “Attention, fiction”de Michel Contat, Le monde des livres 19/11/99. Tradução minha.)
Há alguns dias recebi uma pequena embalagem pelo correio. Quando abri, verifiquei que se tratava de um livro com o título L’Art de Lire (A Arte de Ler), escrito por Emile Faguet, membro da Academia Francesa em 1911. O autor é praticamente desconhecido e o conteúdo reflecte os gostos literários da época, contudo a intenção do autor e a sua preocupação com a leitura é louvável. Neste livrinho, o autor faz da leitura uma arte, elogia a leitura lenta, indicando caminhos, e determina, de certa forma, através dos tipos de leituras, em função dos géneros literários e da exemplificação com autores franceses, os livros bons e maus.
Determinar a boa ou a má literatura não é uma tarefa fácil e, até, é bastante ingrata, dado que se trata de posturas e gostos com os quais podemos facilmente discordar. Cada qual tem um género preferido e uma motivação muito pessoal na sua escolha. No entanto, questão antiquíssima dos géneros literários pode servir de orientação para facilitar o acesso ao objecto, quer seja a procura do leitor, quer a venda do produto. Chegámos a um ponto em que o que realmente importa é pôr a pessoas a ler, qualquer coisa, mas ler simplesmente, porque o iletrismo é iminente nas nossas sociedades, onde a imagem adquiriu um poder superior pela sua divulgação, uso eficácia e persistência. A imagem fala por si, transmite um mundo de conteúdos fáceis de apreender. Hoje em dia as imagens e a sucessão de imagens pode veicular ideias complexas que frequentemente não levam à enunciação, mas podem, facilmente, induzir em erro.
Há uns anos atrás num país europeu, nomeadamente, em França, um estudo revelava que grande parte dos jovens recrutas eram iletrados, apesar de terem frequentado a escola até ao 9º ou 12º ano e terem adquirido as competências necessárias para ler e escrever. Estes jovens perderam estas competências por falta de prática. O alerta foi dado, mas, até agora, poucas soluções foram efectivas e eficazes na solução deste problema. Queremos uma sociedade capaz de ler, de perceber e interpretar os textos que lhes são propostos, porque nem sempre as imagens revelam tudo e porque é um ponto essencial para formar cidadãos conscientes e intervenientes. Queremos? Temos que ser clarividentes neste assunto, dado que o único trabalho ainda construtivo a fazer neste campo tem que ser feito através da educação dos mais jovens.
Permitam-me uma pequena interrupção para contar uma história. Há uns anos atrás, no momento crucial antes do sono, pelas 20:00 horas, tinha os olhos tão cansados que em vez de ler uma história às minhas filhas perguntei-lhes se não se importavam que eu a inventasse. Depois de algumas hesitações, negociações e argumentações, acabaram por concordar. Como tinha acabado de ler A demanda Santo Graal e como as histórias de cavalaria obedecem a uma construção com uma estrutura muito bem elaborada que pode servir de modelo, foi fácil, partir de personagens em busca de algo de abstracto(não definido na minha história), mas que ao longo dos seus caminhos, cheios de encruzilhadas e de escolhas difíceis, iam superando provas contra monstros, dragões, cavaleiros negros, fontes encantadas, jardins fechados, castelos enfeitiçados, etc. A dada altura tive que arranjar forma de suspender a história, dado que já passavam das 20:30, hora em que, normalmente, as crianças devem estar sozinhas na sua cama a procurar o sono, ou a dormir. Nesse momento de silêncio, a minha filha mais nova exclamou-se: “Lê mãe! Lê!”. Percebi que todo o processo visual e virtual no “cantar” da história tinha sido accionado pela magia das vozes. A aventura da leitura passa antes de tudo pela entoação e pelo sentimento que se lhe imprime.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 1/09/06)